LEMBRANÇAS DE SERTANEJO

Lembro-me das vezes que eu ia para o sítio para a casa de meus tios Maria e Nequim Rodrigues, na verdade o sítio deles era um pé de serra, seco, cheio de cascalhos, não tinha ‘um pé de sombra’ pra gente ficar em baixo, mas, não sei como, ele plantava e conseguia fazer com que a plantação vingasse. Quando pequena, eu adorava correr entre o milharal que já estava grande e me cobria. Eu gostava de brincar com as ‘bonecas de milho’, achava lindo aqueles cabelões de todas as cores e quando eu ia pra casa de meu tio passava o tempo todo dentro do milharal quebrando as espigas para brincar de boneca, ele ficava muito bravo comigo, também pudera, se me deixassem eu acabava com a plantação. Eu passava horas e horas lá dentro brincando, branquinha, cabelo loiro ao sol ‘chega alumiava’ como dizia ele, mas, quando eu saia de lá de dentro, meu Deus, eu saia toda vermelha e com o corpo todo coçando com os pelos do milho e das ramas de feijão de corda que ele plantava junto na mesma cova as sementes de milho e feijão e nasciam tudo junto, o feijão trepava no pé de milho. Na verdade era uma plantação de feijão junto milharal, eu chamava aquilo de ‘mijão’, milho mais feijão igual a ‘mijão’, lógico! Era bom demais ir para a casa de meu tio ele tinha quinze filhos era gente pra não acabar mais. Meu tio se orgulhava que dentre seus quinze filhos Deus tinha chamado um pastor e um padre e que nunca nenhum deles teve problemas com droga ou outro tipo de vicio. Um dos momentos mais divertidos na casa de meus tios era a hora do ‘cumer’. Minha tia fazia um panelaço de angu, angu de ‘mió muído’, sabe?Juntava a ‘fiarada’ arredor do tacho e botava angu pra todo mundo. Uma vez ele demorou fazer o angu e um de meus primos, eles eram aquele tipo de criança do sertão, daquele tipo bem tradicional, miúdo, nu, perna fina, cabeça grande e bucho maior que a cabeça. Pois bem, ela demorou a colocar refeição pros moleques e um deles não estava mais agüentando a fome, sentado no chão batido com as pernas cruzadas, começou a bater a bunda no chão e puxar os poucos cabelos que ele tinha na cabeça, pois ele tinha a mania que arrancar os cabelos e comê-los, quando ela acabou de fazer a comida pegou o menino pelo braço magro e, tadinho,fez com que ele comesse o angu ainda quente, ela só deixou ele parar de comer quando ele já não agüentava mais e estava vomitando tudo o que tinha botado pra dentro, depois desse dia eu resolvi que do angu eu só comeria a raspa da panela e depois que todo mundo já tivesse comido. Nós crescemos juntos, mas, a vida tratou de nos afastar. Há quem acredite que o amor está fora de moda. Há quem acredite que as pessoas só se aproximam umas das outras por interesse seja ele qual for. Eu acredito na verdade do amor que nasce no coração de pessoas simples, no amor que nasce no coração de pessoas que são desprovidas da malícia do status e assoberbada maldade humana. De volta a casa e a família que tantas alegrias me deu, meus primos e eu, nos reencontramos outra vez unidos pela dor da saudade e pelos laços das boas lembranças.
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