♥♫♫... Há coisas que o tempo não desfaz. Há coisas que a vida pede mais ...♫♫♥ (Roberto Carlos)
domingo, 8 de abril de 2012
UM CONTO AS AVESSAS
Eu tinha lá uns doze anos de idade. Pasmem! Com doze anos eu ainda brincava de boneca! Eu ainda gostava de brincar de boneca nunca tinha namorado, menos ainda, beijado na boca. Eca! Mas, esqueçamos as bonecas e vamos ao que interessa de verdade. Com essa idade eu cursava o fundamental II , melhor dizendo , estudava na sala do oitavo ano, naquela época era conhecido com sétima séria. Nessa mesma sala havia um garoto muito desengonçado, magrelo, tinha a cabeça maior que seu próprio corpo, isso sem falar nos óculos que ele usa. Ele tinha uma cabeleira que só vivia emaranhada. Mas, tinha nele uma coisa que eu achava muito bonito que eram os olhos. Quando ele tirava os óculos dava pra ver direitinho o verde dos olhos dele. E não bastava que eu achasse aquele garoto horrível ele tinha que se engraçar pro meu lado. Pode uma coisa dessas? Pois é! Ele era tão sem noção, mais tão sem noção que vivia me cantando. Literalmente me cantando. Ele não podia chegar perto de mim que começava a cantar “... e agora não durmo direito pensando em você lembrando seus olhos bonitos perdidos nos meus...” Aff! Eu não suportava ouvir aquilo! Acho que foi por isso que até hoje consigo mais ouvir essa música. O moleque era não desistia. Sempre que me via ele chegava perto de mim e sempre cantando a mesma musica. Certo dia, não sei como, ele criou coragem e resolveu me pedir em namoro. Nossa! Que vergonha! Movida pela curiosidade de saber como era namorar, mas, com nojo só de pensar que namorar tinha que beijar na boca, eu olhei bem nos olhos dele e falei sem vergonha nenhuma:”- Só namoro você se você prometer que nunca vai me beijar. Promete?” Então ele torceu a cara pro lado na tentativa de disfarçar o sorriso, mas, mesmo assim eu pude perceber que ele estava louco pra soltar uma gargalhada bem na minha cara. Então ele me respondeu: “-Prometo. Mas, você vai ter que me dizer por que você não quer me beijar”. Eu pensei comigo mesma “que garoto chato! Será que ele quer me namorar só pra me beijar?! E se ele souber que eu não sei beijar? Será que ele ainda vai querer me namorar?? Santa inocência a minha! Então, foi minha vez de criar coragem e falar, dessa vez sem coragem de fitá-lo nos olhos. Baixei a cabeça, pus as mãos para trás, com um dos pés descalço comecei a rabiscar a areia tentando encontrar uma maneira de falar que eu não sabia beijar. Depois de um longo silêncio e ter que ouvi-lo cantar desafinadamente “...Princesa! A musa dos meus pensamentos. Enfrento a chuva o mau tempo pra poder um pouco te ver...” Com essa música e aquela voz horrível que ele tinha (Nossa que voz triste!Nunca ouvi alguém cantar tão mal!) Não deu outra, para acabar com aquela tortura, eu balbuciei “-É que eu não sei beijar!” Para o meu espanto ele não se mostrou surpreso com minha confissão, parou de cantar (ainda bem) e me fez uma proposta que consistia em ele me beijar e se eu não gostasse ele me deixaria em paz e nunca mais cantaria a musica ‘princesa’ pra mim. Achei ótimo só em saber que poderia nunca mais ouvir ele cantar pra mim. Então ele me disse: “-Feche os olhos e deixe que eu faço o resto”. Eu nunca imaginei que beijar fosse só isso! Que era só fechar os olhos e pronto. Então isso não podia ser tão ruim assim como eu imaginava. Então concordei com ele e fechei os olhos. Eu estava meio tremula, ainda tinha receio do beijo que pra mim era desconhecido. Então ele se aproximou de mim, encostou seus lábios frios nos meus (Que coisa gelada!), Mas, esperai ai, não era só fechar os olhos e pronto? Ora que fechar os olhos que nada! Quando menos espero ele dá um jeito de abrir minha boca e enfiar meio palmo de língua dentro de minha boca. Nossa que horror! A língua dele ficava dançando em minha boca oca. Até parecia um esgrimista tentando atacar o adversário com sua espada. Os meus dentes batiam nos deles até doer. Minha boca enchia-se de saliva e ficava cada vez mais gelada. Eca! Que nojo! Nunca mais vou beijar ninguém e nem vou deixar ninguém me beijar! Em um impulso só o empurrei pra longe de mim e sai correndo com nojo e medo de tudo aquilo. O garoto cumpriu a promessa que me fez e em poucos meses se mudou com a família para Maringá e nunca mais ouvi falar dele, mas, eu infelizmente, não consegui cumprir a promessa que fiz a mim mesma. Muitos, muitos anos depois nos reencontramos. Eu juro que não o reconheci. Ele estava diferente. Tinha ficado mais forte, deixou de usar óculos, o cabelo grisalho, bem cortado, tipo militar. A voz, definitivamente, era outra, mas grave, meio rouca. Ele tinha se formando em direito e atualmente era promotor de justiça. Bem, eu também mudei um pouco. Tive uma filha, engordei uns trinta quilos e acabei como professora primária. Ele aproximou-se de mim e perguntou: “-Você se lembra de mim?” E eu respondi: “-Não!” E ele continuou: “-Você está muito diferente. Tudo em você mudou menos os seus cabelos que continuam lindos como sempre”. Lembrei dele na hora e morrendo de vergonha tratei de sair rapidinho daquela situação embaraçosa. Despedi-me dele e segui em frente pensando como um beijo pode mudar a vida da gente. Se eu soubesse que ele irai tornar-se um deus grego daquele bem que eu teria me esforçado em aprender a beijá-lo. Deixei de beijar o sapa que era príncipe e beijei muitos príncipes que viraram sapo.
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